
PASSAGEM DE TEMPO - TARDE
INT. CAFÉ DE ALICE TARDE
Alice e
Alberto estão do outro lado do balcão e estão a comentar uma notícia que
acabaram de ler no jornal.
ALICE
Esta gente hoje em dia… O que é que lhes deu para assaltar um banco?!
ALBERTO
Ó filha, isto está mau. As pessoas hoje em
dia fazem de tudo para ter comida na mesa.
ALICE
Está bem, mas assaltar um banco... O que vale
é que nós temos um banco aqui no bairro, mas cá não vêm, porque está sempre
gente na rua.
Ana entra agora no café.
Acaba de chegar da escola e vem com a mochila. Esta aproxima-se do balcão.
ANA
Olá mãe, olá avô!
ALICE
Olá
filha! Então como correu a escola?
ANA
Correu bem.
ALICE
E
não vais querer comer nada?
ANA
Não, eu como em casa.
ALBERTO
Ora assim é que deve ser. Poupas mais.
ANA
Bem
vou para casa que daqui a pouco está a estrear a nova novela.
ALICE
E estudar, não?
ANA
Ai
mãe! Estudar para quê? Já estudei na escola.
ALBERTO
Claro! Deves ter estudado deves.
ANA
Bem,
vou para casa para não vos estar a ouvir.
E sai do café.
ALICE
Ai, esta miúda.
ALBERTO
Às
vezes, mas muito às vezes, faz-me lembrar alguém.
Alice sorri.
INT.
HOTEL VALENTE – SALÃO DE ESTÉTICA TARDE
Rute está arranjar as unhas de uma cliente e
ao mesmo tempo conversa com ela. As suas outras trabalhadores fazem outros
trabalhos de estética a outras clientes.
RUTE
Então e gostou de se ver com as últimas unhas?
CLIENTE (FIGURANTE)
Sim
gostei. Sabe? Uma vez fui arranjar as unhas a um salão e saí de lá quase sem
unhas. Desde que experimentei o seu salão, nunca mais quis outra coisa.
RUTE
É
bom saber isso.
Rute
com um sorriso.
CLIENTE (FIGURANTE)
Então e viu a noticia que saiu hoje no jornal?
RUTE
Não,
não vi, é só desgraças.
CLIENTE (FIGURANTE)
Pois, mas é a realidade.
RUTE
Eu
sei, mas então prefiro ficar pelas revistas dos famosos.
A cliente sorri.
INT.
CASA DE ALICE – SALA TARDE
Tiago está a ver televisão, está sentado no
sofá com os pés em cima da mesa de centro da sala, com o comando na mão, e Ana
está junto do sofá a discutir com este.
ANA
Ó Tiago vá lá! A novela é nova.
TIAGO
Mas
tu importas-te de parar de me chatear? Porquê que não vais brincar com bonecas
ou pintar as unhas ou até mesmo ouvir uma daquelas tuas músicas?
ANA
Sinceramente nem te vou responder. Mas vá lá, deixa-me ver a novela?
TIAGO
Mas
porquê que eu não tenho televisão no quarto?
Pergunta-se Tiago.
ANA
Porque se calhar somos pobres…
TIAGO
Mas
ainda estás aqui, miúda?
ANA
Se me deixares ver a novela prometo que dou-te dez euros.
TIAGO
Nada
feito.
Tiago abanando a cabeça,
sempre sem tirar o olhar da TV.
ANA
Vinte?
TIAGO
Perfeito!
Tiago levanta-se do
sofá, aproxima-se de Ana e aponta-lhe o comando.
TIAGO
A seguir á novela…
(Pausa)
Bate ali no meu quarto para me
dares os vinte euros.
Tiago com um sorriso dando o comando a Ana.
Tiago sai da
sala e vai para o quarto com um ar satisfeito. Ana senta-se, muda de canal,
estende as pernas em cima da mesa de centro e sorri para a TV.
INT. CAFÉ DE
ESMERALDA – COZINHA TARDE
Esmeralda está a ouvir e a cantar fado
enquanto lava a louça do café.
ESMERALDA
Cheira bem, cheira a Lisboa! A fragata que se ergue na proa a varina
que teima em passar, cheiram bem porque são de Lisboa, Lisboa tem cheiro de
flores e de mar…
Anabela entra agora na
cozinha com umas chávenas.
ESMERALDA
Cheira bem, cheira a lisboa!...
ANABELA
(Suspirando)
Ai mais uma ajuda lá em casa. Tenho muito orgulho nos filhos que
tenho.
Esmeralda está tão distraída a cantar e a
lavar a louça que nem ouviu nada do que Anabela acabara de dizer.
ESMERALDA
O que é que disseste?
ANABELA
Ai
mulher, mas tu e o fado, porra! Esqueces tudo e toda a gente.
ESMERALDA
O fado para mim é um medicamento. Se o tomar passa logo.
ANABELA
(Entre dentes - baixinho)
Por isso é que quando o enjerimos muitas vezes ele já quase não faz
efeito nenhum.
ESMERALDA
Disseste
alguma coisa?
ANABELA
Quem eu? Não… Não disse nada.
Anabela com
um ar engraçado e um pouco irónico.
Esmeralda
continua a lavar a louça e a cantar sobre o olhar de Anabela.
ESMERALDA
…Cheiram bem porque são de Lisboa, Lisboa tem cheiro de flores e de
mar…
INT. CAFÉ DE
ALICE TARDE
Alberto está atender uns
clientes que estão sentados numa das mesas e Alice está no balcão a endireitar
os bolos da montra. Segundos depois, Vitória entra com um ar um pouco triste e
logo Alice avista-a.
ALBERTO
(Para os cliente)
Com licença.
VITÓRIA
Olá avô!
ALBERTO
Ó
minha querida!
Cumprimentando
Vitória.
Alice
aproxima-se.
ALICE
Filha! Que cara é essa?
ALBERTO
Realmente…
Passou-se alguma coisa?
Vitória respira fundo.
VITÓRIA
Mãe posso falar um bocadinho contigo?
ALICE
Ai filha, o que é que se passa? Estás a deixar-me preocupada!
ALBERTO
Quem
é que te fez mal? Olha que eu vou-lhe á tromba!
VITÓRIA
Calma! Não é nada de especial, só quero desabafar com a mãe.
ALBERTO
Ah…!
Já percebi tudo. Mulheres!
Vitória sorri com um
sorriso um puco fechado.
ALICE
Vamos nos sentar e conversar, filha.
Alice e Vitória sentam-se numa das messas do
café.
INT. CASA DE
ANABELA - SALA TARDE
Rita e Laura estão
sentadas no sofá da sala a conversar.
LAURA
Ainda bem que saí mais cedo do café. Assim posso-me preparar melhor
para o jantar.
RITA
Tu
gostas mesmo do Miguel, não gostas?
Pergunta Rita
desconfiada.
Logo, Laura fica sem
reacção e um pouco incomodada.
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